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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Os Invisíveis


Houve momentos na minha vida em que quis ser invisível ou mesmo possuir a capacidade de assim me tornar. Quem sabe até possuir uma capa mágica, de invisibilidade, para poder passar despercebida por várias situações e não ser notada em determinados locais.

Dizem que isso geralmente é desejo dos tímidos, o que não sou. No meu caso é a mais pura curiosidade misturada com a sensação de inadequação, de não pertencimento ao comum, que sempre me acompanhou ao longo da vida.

Não se trata de uma vontade de sempre ser invisível, mas sim de poder controlar a minha identidade real, de ser visível ou invisível aos olhos dos outros quando eu quiser. O mais provável é que (in)conscientemente eu deseje o tão sonhado auto-controle, aquela atitude rara e tão desafiante para as pessoas impulsivas e espontâneas como eu, mas que não deixa de delinear uma das facetas do que realmente sou.


Triste deve ser a invisibilidade permanente.
Há profissões que contribuem para isso e acabo por me perguntar se quem optou por elas ou foi por elas engolido gosta e quer ser invisível.

Hoje, no trajeto ao trabalho, observei os garis varrendo, recolhendo lixo e pedindo jornais aos entregadores da Metro, na esquina da Berrini com a Roberto Marinho. Os heróis que limpam as nossas sujeiras e a nossa falta de bom senso ecológico só não são totalmente invisíveis porque obrigatoriamente vestem uniformes cor de laranja, com faixas fosforescentes, para garantir que nenhum motorista distraído os atropele durante a jornada de trabalho.

Veja que é necessário o uso de vestuário com essas características, dada a invisibilidade permanente destes cidadãos que fazem um dos trabalhos mais nobres e um dos menos valorizado pela sociedade atual.

Chegando ao trabalho entrei no elevador. Uma moça muito bem penteada e maquiada olhou para mim e sorriu. Disse que infelizmente estava atrasada, o que eu retruquei com um "não se preocupe, eu também estou". Achei ela deveras simpática, afinal estava conversando comigo, uma desconhecida.

Para minha surpresa ela desceu no mesmo andar que eu. Dirigiu-se para a mesma porta que eu e, como se não bastasse tanta coincidência, falou com o guarda da recepção da empresa onde trabalho. Pediu desculpas pelo atraso, sentou atrás do balcão e vestiu o casaco do uniforme. Com um largo sorriso deu bom dia a outros colegas meus que passavam o crachá na catraca.

Descobri que a recepcionista, a quem dou bom dia e boa tarde todos os dias, fora do contexto, para mim é invisível.

Não a reconheci e constatei, tristemente, que ela falara comigo de forma tão simpática durante o trajeto no elevador justamente porque me reconheceu, ou seja, porque para ela eu sou visível.




quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O NOSSO MAL ESTAR AMOROSO - CONTARDO CALLIGARIS

Este texto, do Contardo Calligaris, define muito bem o que penso sobre o assunto.

É uma pena que os adultos solteiros desta geração, dentre os quais me incluo, vivam esse vácuo na seara dos relacionamentos. Digo mais, essa insegurança afetiva não se aplica somente àqueles que ainda não encontraram a cara metade, faz parte de algo sentido por uma geração inteira. Os casados e acompanhados fazem também parte disso, só estão superficialmente "protegidos" pela instituição social ainda hoje denominada "casamento".

O que domina é um vazio emocional, seja pela falta de relacionamentos significativos profundos, seja pelo excesso de problemas psicossociais que levam as pessoas aos encontros eróticos volúveis.

Minha esperança é que seja possível trabalharmos coletivamente essas questões hedonistas-histéricas,  para transformar as relações afetivas em algo mais saudável e gratificante no futuro.

No hoje, as relações afetivas se igualam a um deserto árido e arenoso, mas no passado, pertencente às gerações antecessoras -nossos pais e avós, já puderam ser comparadas a um mar opressor asfixiante.

Resta saber o que esta geração construirá para a próxima. Espero que algo parecido com o "caminho do meio", aquele conhecido como o da "iluminação" no budismo, ou seja, o equilíbrio.

Segue o texto:

O NOSSO MAL ESTAR AMOROSO - CONTARDO CALLIGARIS
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Faltam homens ou mulheres? E quem está querendo só pegação: os homens ou as mulheres?

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NA SEMANA PASSADA, graças ao IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, migre.me/1hb92), aprendemos que, em média, no país, há 105 homens solteiros por cada cem mulheres com o mesmo estado civil.

Claro, em cada Estado a situação é diferente. No Distrito Federal há mais solteiras do que solteiros, no Rio de Janeiro dá empate e Santa Catarina é o paraíso das mulheres (122 solteiros por cada cem solteiras). De qualquer forma, no Brasil como um todo, é impossível afirmar que "faltam homens no mercado".

A Folha, na última quinta (9/9), entrevistou algumas mulheres; uma delas comentou: pouco importa que haja mais homens do que mulheres, o problema é que os homens, depois de um encontro ou dois, dão "um chá de sumiço". Ou seja, pode haver muitos homens, mas eles só querem pegação.

No domingo passado, um leitor escreveu à ombudsman do jornal para protestar: segundo ele, quem não quer nada sério são as mulheres, que são "fúteis e fáceis", salvo quando o homem começa "a conversar sobre algo sério", aí ELAS dão o tal chá de sumiço.

Em suma, faltam homens ou mulheres? E, sobretudo, números à parte, quem está querendo só pegação: os homens ou as mulheres?

Acredito na queixa dos dois gêneros. Resta entender como é possível que a maioria tanto dos homens quanto das mulheres sonhe com relacionamentos fixos e duradouros, mas encontre quase sempre parceiros que querem apenas brincar por uma noite ou duas. Se homens e mulheres, em sua maioria, querem namorar firme, como é que eles não se encontram?

Haverá alguém (sempre há) para culpar nosso "lastimável" hedonismo -assim: todos esperamos "naturalmente" encontrar uma alma gêmea, mas a carne é fraca.

Homens e mulheres, desistimos da laboriosa construção de afetos nobres e duradouros para satisfazer nossa "vergonhosa" sede de prazeres imediatos.

Os ditos prazeres efêmeros nos frustram, e voltamos de nossas baladas (orgiásticas) lamentando a falta de afetos profundos e eternos.

Obviamente, esses afetos não podem vingar se passamos nosso tempo nas baladas, mas os homens preferem dizer que é por culpa das mulheres e as mulheres, que é por culpa dos homens: são sempre os outros que só querem pegação.

De fato, não acho que sejamos especialmente hedonistas. E o hedonismo não é necessário para entender o que acontece hoje entre homens e mulheres. Tomemos o exemplo de um jovem com quem conversei recentemente:


1) Com toda sinceridade, ele afirma procurar uma mulher com quem casar-se e constituir uma família.

2) Quando encontra uma mulher que ele preze, o jovem sofre os piores tormentos da dúvida: será que ela gostou de mim? Por que não liga, se ontem a gente se beijou? Por que ela leva tanto tempo para responder uma mensagem?

Essa mistura de espera frustrada com desilusão é, em muitos casos, a razão de seu pouco sucesso na procura de um amor, pois, diante das mulheres que lhe importam, ele ocupa, inevitavelmente, a posição humorística da insegurança insaciável: "Tudo bem, você gosta de mim, mas gosta quanto, exatamente?" Se uma mulher se afasta dele por causa desse comportamento, ele pensa que a mulher só queria pegação.

3) Quando, apesar dessa dificuldade, ele começa um namoro com uma mulher de quem ele gostou e que também gostou dele, muito rapidamente ele "descobre" que, de fato, essa nova companheira não é bem a mulher que ele queria.

4) Nessa altura, o jovem interrompe a relação, que nem teve tempo de se transformar num namoro, e a mulher interpreta a ruptura como prova de que ele só queria pegação.

Esse padrão de comportamento amoroso pode ser masculino ou feminino. Ele é típico da cultura urbana moderna, em que cada um precisa, desesperadamente, do apreço e do amor dos outros, mas, ao mesmo tempo, não quer se entregar para esses outros cujo amor ele implora.

Em suma, "ficamos" e "pegamos", mas sempre lamentando os amores assim perdidos, ou seja, procuramos e testamos ansiosamente o desejo dos outros por nós, mas sem lhes dar uma chance de pegar (e prender) nossa mão. Esse é o roteiro padrão de nosso mal-estar amoroso.

Para quem gosta de diagnóstico, é um roteiro que tem mais a ver com uma histeria sofrida do que com o hedonismo.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Herbert Vianna - Tragédia versus Superação

O Paralamas do Sucesso, banda de grande sucesso nos anos 90 e ainda uma das mais importantes no cenário musical brasileiro de hoje, apresentou-se na véspera do feriado de sete de setembro na cidade de Parati-RJ, durante as comemorações em homenagem à padroeira da cidade, Nossa Senhora dos Remédios.


Confesso que me emocionei durante o show, misturando minhas lágrimas com aquelas que estavam sendo vertidas pelas nuvens, que choravam uma garoa fininha, provavelmente sentindo o mesmo que eu.

Sou fã do Paralamas do Sucesso. Não daquelas que fundam fã clube ou que rasgam a camiseta e mostram os peitos de forma alucinada quando avistam, a olho nu e a uma distância razoável, os seus ídolos. Mas gosto o suficiente para ainda ter diversos CD´s desta banda na minha prateleira, saber músicas de cor e ter assistido a dois shows deles durante minha adolescência, antes do acidente do Herbert Vianna e, agora, este terceiro, já na minha vida de adulta e pós-tragédia.

Não pense que chorei por amor à música que ouvia ou por tietagem, não. Chorei pela profundidade, complexidade e intermitência da vida humana.

Emocionei-me por ver o Herbert Vianna naquela cadeira de roda, paraplégico, depois de diversas lesões, inclusive cerebrais, na chuva, cantando pra mim. E digo mais! Não só cantando, mas pedindo desculpas, porque o show não seria aquilo que ele “sonhou”, pois a água poderia danificar a aparelhagem elétrica ou mesmo colocar todos em perigo.

Disse que cantaria uma última música. Cantou mais cinco. E agradeceu muito.

Herbert sofreu lesões cerebrais no lóbulo temporal direito e no hipocampo do cérebro, áreas responsáveis pela memória recente. Ele nunca lembra o que comeu no café-da-manhã ou o último filme que assistiu, mas ainda é capaz de tocar, cantar e compor maravilhosamente bem.




E a maior de todas as capacidades do Herbert, essa de caráter, que serve de estímulo e modelo para todos nós, para os momentos em que desanimamos aos menores obstáculos e em que sucumbimos diante das menores perdas: ele tem a humildade e a coragem de continuar, mesmo que isso doa...


2A


Os Paralamas do Sucesso
Composição: Herbert Vianna

Meu destino não me deixa em paz
De coração, não sei se eu posso amar
Amei tanto há tanto tempo atrás
Mas sofri, chorei, cansei de soluçar
Nem sei se é o fim,
Mas a luz da vida ainda brilha pra mim.
Pra uma princesa eu entreguei meu coração
Ela me fez cantar, sorrir, sonhar, sentir tesão
Me entreguei, fiz tudo que ela quis
Mas o destino me deixou na mão
Se é assim, que não seja o fim
Pois a luz da vida ainda brilha pra mim.
Então xinga
Com dois "a" de caatinga
Ou então pára
Sejam dois "a" de saara

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Auto-crítica - uma doença autoimune

Preconceito contra ciganos é generalizado na Europa. Terra Brasil – 28/08/2010

Estudantes homossexuais sofrem com o preconceito – Jornal do Comércio – 30/08/2010

Participação feminina no Rally dos Sertões bate preconceito e aumenta – Globo Esporte - 20/08/2010

Paraolímpicos pedem “ fim do preconceito” – Estadão – 21/08/2010

Preconceito contra heterossexuais pode dar cadeia – Band 24/08/2010 (é isso mesmo, você não leu errado!)
 







As reportagens são do ano 2010 d. C..
Se abríssemos a Bíblia neste exato momento para uma leitura histórica do livro mais popular do mundo, poderíamos extrair manchetes, em essência, sobre o mesmo assunto.

Samaritanos são discriminados pelo povo judeu. 20 d. C.

Maria Madalena será apedrejada em praça pública por adultério. 30 d. C

Publicanos são considerados traidores - cobram impostos em nome do Império Romano. 5 d. C.














Quem nunca se sentiu discriminado? Diferente? Peculiar? Descolado? Desconectado? Injustiçado? Incompreendido? Desrespeitado?
E por quê?
Garanto que sempre pelos mesmos motivos: por SER diferente, por FAZER diferente, por PENSAR diferente, por SENTIR diferente do grande rebanho do Senhor.


A moda é, e sempre foi, a massificação. A identificação com o outro da mesma “espécie”. Nem que pra isso tenhamos que aniquilar o que há de mais bonito e sagrado na individualidade alheia.
E aí vem a grande ironia de tudo.
Com o andar da carruagem, o Senhor do Tempo trata de colocar cada uma das abóboras, que são todas da mesma espécie, mas cada uma difere em tamanho, vincos, peso... no seu devido lugar , e aquilo que era “esquisito”, “exótico”, “excêntrico”, “coisa de gente louca” passa a ser “cult”, “moderno”, “genial”, “coisa de gente inteligente”.
O caminho do meio, em termos de discriminação, é não ter preconceito contra si mesmo, contra as próprias ideias.
É não desenvolver uma doença autoimune, um lúpus emocional, enfermidade popularmente conhecida como AUTO-CRÍTICA.
Quem se aceita como é, não discrimina a individualidade do outro.

domingo, 29 de agosto de 2010

Grandes artistas surgem no vácuo silencioso da inexpressão dos sentimentos

Só é possível compor uma melodia, fazer um arranjo musical ou mesmo escrever a letra de uma música capaz de tocar profundamente a alma humana quando seu autor se alimenta da inexpressão dos amores e das dores pelas vias comuns.

Só há obras-primas na pintura, porque o pintor ao plasmar o redemoinho de emoções que avassala o seu íntimo em uma tela envolta por um turbilhão de cores, combinações e texturas, acaba por revelar o tesouro escondido atrás de seu silêncio inexpressivo.

Já o escritor grita, chora, ama, odeia, sussurra, morre, mata, muda, mas não fica mudo...

Todos os momentos de tormenta e tempestade interior, contidos em um silêncio emotivo exterior, tornam a ser revividos, reescritos e reinventados, mas, desta vez, no papel.

E só alguém com esta habilidade de suportar tantas mudanças meteorológicas da alma, sustentando a inexpressão do que se passa em seu íntimo é capaz de se conectar intimamente ao leitor e transformar em palavras dirigidas a ele a empatia do que é ser humano.


E para ilustrar isso, nada como a música “Pais e Filhos”, do Renato Russo, ídolo da minha geração.

Não conheço uma pessoa que não seja tocada profundamente ao refletir sobre o conteúdo desta canção.

Com certeza, Renato Russo era um artista perturbado pela sua dificuldade de expressar emoções pelas vias comuns, basta conhecer sua biografia.

Pais E Filhos
Composição: (letra: Renato Russo - Música: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)

Estátuas e cofres. E paredes pintadas.
Ninguém sabe o que aconteceu.
Ela se jogou da janela do quinto andar.
Nada é fácil de entender.
Dorme agora.
É só o vento lá fora.
Quero colo. Vou fugir de casa.
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo. Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três.
Meu filho vai ter nome de santo.
Quero o nome mais bonito.
É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.
Me diz porque que o céu é azul.
Explica a grande fúria do mundo.
São meus filhos que tomam conta de mim.
Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar.
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar.
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais.
Eu moro com os meus pais.
É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.
Sou uma gota d'agua
Sou um grão de areia.
Você me diz que seus pais não lhe entendem.
Mas você não entende seus pais.
Você culpa seus pais por tudo.
E isso é absurdo.
São crianças como você
O que você vai ser, quando você crescer?


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Só quem já foi auditor/consultor de Big Four vai entender isso

Sexta-feira, 15h29min. Faltam 46 minutos para acabar o expediente. Estou sentada olhando a tela do computador e não tenho nem vontade de trabalhar e nem vontade de “morcegar”, fingindo que estou trabalhando. Já pesquisei tudo o que queria no Google. Já li desde sites de notícias importantes até matérias leves no estilo “como combinar meia-calça colorida no inverno para arrasar em um look fashion”.

Eis que olho pro lado, para a direção onde fica a mesa de um gerente que está de licença-saúde e vejo duas mulheres sentadas, de frente uma para outra, bastante compenetradas, trabalhando em seus notebooks.

Na área em que trabalho, todos temos desktops, logo, só podem ser terceiras, prestadoras de algum serviço pontual.

Resolvi observar, afinal o tédio me dominava. De onde eu estava, podia ver a tela do notebook da mulher que estava de costas pra mim. Planilha complexa em Excel. Ela, sentada de mau jeito, se contorcendo toda para conseguir trabalhar em posição tão desconfortável, já que não havia espaço para suas pernas embaixo da mesa. Coçadas na cabeça, revelando dúvida. Franzidas de testa. Deleta e apaga. Refaz. Que aflição...

A outra, sua colega, estava sentada bem confortável, na cadeira do gerente licenciado. A melhor cadeira. Giratória, macia e ampla. Tinha mais espaço na mesa também. Em cima e embaixo, para esticar as pernas, se quisesse, até, quem sabe, provocar câimbra na panturrilha. Tinha um semblante de paz, de tranquilidade. Que sossego...

A Sossegada falou algo que não pude ouvir. A Aflita então se abaixou abrindo uma mala de viagem, de rodinhas. Tirou de dentro vários papéis, uma garrafa de um litro de água e a fonte de alimentação do notebook. Não a que lhe pertencia, mas a do computador da Sossegada.

Procurou a tomada, plugou a fonte. Serviu água. Leu documentos. Discutiu o que leu e entregou para a Sossegada. Voltou para a sua posição de contorcionista, agora tentando fazer a meia lótus da Yoga, pra ver se aliviava a dor nas pernas. Cara de aflição.

Neste momento virei para meu colega e perguntei: “as duas mulheres na mesa do gerente licenciado são auditoras, né?”

Meu colega responde: “sim, são auditores de SOX.”

Então sorri, num misto de “triste constatação” com “agradecimento por não fazer mais parte disso” e disse a ele: A Sossegada é a auditora sênior. A Aflita ou é trainee, ou é auditora pleno ou júnior, mas a responsável pelo trabalho é a Sossegada. Quem de nossa equipe está atendendo elas?"

Meu colega respondeu que ainda não estavam analisando nossa área, mas referiu quem de outro departamento estava fornecendo documentos no momento.

Para complementar, relatei a ele detalhes do que havia observado e ainda aproveitei para dizer: “posso apostar que quem sempre vai pedir os documentos para o nosso pessoal interno é a Aflita. Está muito evidente a ‘hierarquia e o modo de trabalho Big Four’.”

Meu colega não aguentou. Virou-se para mim e disse: “assim não vale!. Você deve ter conversado com seu chefe antes e agora está me dizendo tudo isso só pra me impressionar!!! Realmente quem sempre pede documentação é a Aflita! Ou então, você é muito perspicaz pra ter percebido tudo isso sozinha!”

Infelizmente tive que responder que de perspicácia, minhas observações não tinham nada, foram as marcas do caminho.

É, tudo é dual.

As melhores histórias, as melhores brincadeiras, as melhores viagens de trabalho. Amigos inesquecíveis. Intensivo em conhecimento, três anos em um. Uma novidade por dia. Oportunidades únicas de desenvolvimento pessoal e profissional. Investimento em estudo. Acompanhamento individual de carreira.

Muita cobrança. Perfeccionismo. Competição. Falta de bom-senso, de empatia e carinho pelo ser humano. Desrespeito às necessidades básicas: comer, dormir, sentar-se direito, lazer, família. Falta de respeito aos limites individuais.

E a tal da “pirâmide”. A famosa “pirâmide hierárquica”, que me fez em trinta segundos perceber quem era quem, na mesa do gerente licenciado e que acabou gerando uma pequena reflexão, piegas, mas sempre, reflexão.

Onde quer que a gente vá, a única coisa que levamos é o que aprendemos com nossas experiências. E isso, como tudo, também é dual. O importante é lembrarmos com saudades dos momentos de felicidade e alegria e utilizarmos os momentos de sofrimento e dor, como exemplo do que não queremos mais que faça parte da nossa vida.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

QUEM DISSE QUE SÃO OS OLHOS OS ESPELHOS DA ALMA?

Hoje conversei com um grande amigo pelo MSN, ele no Rio de Janeiro, eu aqui em São Paulo.

Groselha vai, groselha vem, comentei que tinha me ocorrido uma ideia brilhante de tema para escrever um livro. E que esta obra viraria um best seller, rendendo tanto dinheiro em direitos autorais, que eu nunca mais precisaria trabalhar. Ainda complementei o pensamento em clima de "sonho",  comentando a história de vida do Stephen King. Antes de escrever "Carrie, a Estranha", seu primeiro livro, ele vivia de forma bem humilde em um trailer e, por não acreditar que esse livro daria certo, quase cometeu um crime literário ao jogar o rascunho do primeiro capítulo  no lixo, o que foi impedido a tempo, por sua esposa que resgatou os manuscritos antes que tudo virasse um grande nada.

Meu amigo, muito curioso, insistiu em saber do que se tratava essa minha "ideia". Eu, por outro lado, teimei em dizer que não podia contar, afinal, imagina se ele se apoderasse disso e se tornasse o autor desta grande obra que estava na minha imaginação!? Ele riu, daquela forma que só as pessoas que usam o MSN conseguem comunicar que riram e eu, pra tornar a coisa toda mais engraçada e instigante ainda disse: OK, vou te contar, porque sei que você teria preguiça de escrever esse livro!!!

Então, comentei que precisaria desenvolver todo o enredo, mas que em resumo a história era sobre um personagem que se sentia angustiado, triste e sozinho, sem rumo na vida e que, por acaso, encontrava uma máquina de programar o destino. Essa máquina era incapaz de voltar no tempo para consertar o que já havia acontecido, mas que poderia mudar o futuro. Ainda referi que não sabia se daria um tom infanto-juvenil ou se daria um ar de auto-ajuda.

Neste momento meu amigo interferiu e comentou: sei, rsrs, ele parece bem brasileiro, tá na roça e, deixa eu adivinhar, no final ele vai se ferrar, né? Vai descobrir que não adianta nada controlar o destino!!!

Comentei que se fosse de auto-ajuda sim, mas se fosse infanto-juvenil eu poderia inserir monstros, fadas e coisas sobrenaturais na história, além de poder dar um fim inusitado ao livro.

Aí meu amigo disse: isso aí tá parecendo "De Volta para o Futuro". O enredo lembra também "Minority Report" ou mesmo os "Doze Macacos", lembra desses filmes?


Demos muita risada, rs!!! Eu assisti "De volta para o Futuro" com minhas amigas faz duas semanas, em uma festinha "Anos 80" que fizemos na casa de uma delas. (A foto abaixo é de nossos "topetes"). Ficou bem claro pra mim que a ideia não é nada original...na verdade não é uma ideia para um "best-seller" como eu pensava.

Voltamos às groselhas....e discutimos que no fundo tudo é cópia de tudo. Disse a ele que pra mim, por exemplo, Matrix é uma "releitura cult" do mito da caverna do Platão (isso não deve nem ser ideia minha, devo ter lido em algum lugar)...depois pensamos em conjunto sobre um possível programa no estilo "Reality Show" pra ele criar....groselha vai...groselha vem..... e ficou pra mim a grande mensagem de todas....nada como amigos...os grandes espelhos da nossa alma.

Sem sombra de dúvida, a próxima grande ideia para escrever um "best-seller" que eu tiver, passará pelo crivo do meu amigo e de tantos outros, antes mesmo de ir para o papel.

"Carrie, a Estranha" não existiria, se a esposa de Stephen King não tivesse chafurdado no lixo naquele dia.

QUEM DISSE QUE SÃO OS OLHOS OS ESPELHOS DA ALMA?

sábado, 24 de julho de 2010

Sou uma sacola com problemas psicológicos!!!!

Toda vez que entro no Pão de Açúcar e vejo a cena da foto respondo mentalmente para a sacola: " Não, você não é uma sacola verde, você é bege e um dia ficará branca de tanto ser lavada. Reze para ser comprada e usada, porque a maioria das pessoas não tem consciência ecológica e pode ser que você passe a sua vida inteira pendurada aí, vendo o ir e vir das pessoas. Ou procure um psicólogo para te ajudar a descobrir quem você é, mas definitivamente e sem sombra de dúvida, você não é verde. Desculpa ser eu a ter que dizer isso pra você."




E por causa desta atitude correta do Grupo Pão de Açúcar frente ao que fazemos contra nosso planeta em termos de conservação e utilização dos recursos naturais, minha cabeça virou um liquidificador de ideias. Veja só o que uma sacola em crise de identidade pode fazer com um cérebro hiperativo!




Ocorreu-me que sempre que falamos em ecologia, ecossistema, sustentabilidade, Direito Ambiental, conservação dos recursos utilizamos a cor verde como referência. Não consigo entender por quê!!!



















Nosso planeta é azul, isso já foi provado pelas imagens de satélite feitas do espaço. A superfície da terra é recoberta de 75% de massas líquidas, ou seja, água! Leitores, que cor é a água pra vocês (daltônicos não respondam, nem você sacola!!!)? Pra mim a água é azul, assim como o céu. Conforme a profundidade da água ou as mudanças climáticas do tempo em relação ao céu, mudam os tons e nuances, mas sempre será azul combinado com alguma outra cor, que dá vida aquela imensidão de paz e de beleza divina. Sei que físicos e químicos talvez contestarão essa reflexão, mas estou falando da experiência empírica e não de pesquisa científica.


Por outro lado, a sacola em seu grito público de "eu sou uma sacola verde", fez-me girar o foco para outro lugar, aquele solitário e escondido, onde ficam as pessoas que não se conhecem. Que precisam ser verdes, que acham que são verdes, que acreditam que ser verdes é a única e melhor alternativa a seguir. E esquecem da beleza que é ser bege. Uma cor que aceita a interação com todas as outras. Que reflete muito mais a luz do sol, que alimenta a imensidão da vida neste lugar, muito mais do que o verde.

Quantas pessoas você conhece que afirmam ser verdes e você tem a nítida sensação de que está vendo outra cor e se pergunta: mas porque este cidadão insiste com verde se está claro para todo mundo que é bege!!! E porque tanto repúdio ao bege... medo de descobrir um mundo de infinitas possibilidades não exploradas? Afinal, o bege é diferente do verde e terá experiências diferentes dele. E tem mais!!! Bege, para a opinião pública é insono, verde é ecologia, em que pese nosso mundo natural ser azul e ninguém nem se lembrar dessa cor nessa hora.

Quem tem natureza bege e continua sendo verde para agradar aos outros contribui para o daltonismo emocional que virou doença contagiosa num mundo que acredita cada vez mais na razão pura. Quem é bege e quer ser verde está condenado, talvez, a ficar pendurado em algum supermercado da vida, assistindo ao ir e vir das pessoas, porque quem não sabe o que é, não sabe onde está, então qualquer lugar serve.

E aí, depois de pintar um quadro em bege, azul e verde no pensamento, volto para o mundo real e preciso admitir caro leitor, nunca comprei essa sacola problemática.

Não porque eu não preserve o meio ambiente ou não adote de coração a ideia de proteção ecológica. Tenho três sacolas retornáveis que me acompanham ao supermercado. Uma é bege (risos), com logotipo e dizeres do Projeto Tamar, de proteção às tartarugas da Praia do Forte-BA, comprada para este destino, a outra é vermelha, presente da Citroen na revisão do meu carro, e a terceira é bege também (risos), com o logo da HBO, também presente.



O fato de eu não comprar a sacola  "verde" é que sempre me pergunto: se ela é vendida no Pão de Açúcar, é exposta na entrada do supermercado, como que eu provo no caixa que a sacola que está comigo é minha, já paga em ocasião anterior, e não uma daquelas que até minutos atrás estava ali, gritando ao mundo que é "verde", já que todas são iguais?


Entre a vergonha e o constrangimento de acharem que furtei uma sacola retornável e levar uma sacola ecológica que jamais poderia ter sido adquirida naquele supermercado, eu levo a minha. O importante é dizer chega aquele monte de sacolinhas plásticas que vão acabar um dia boiando no Rio Tietê...ou nas ruas de São Paulo...quando chover demais...



Aí pensei, será que mais alguém deixou de comprar essa sacola pelo mesmo motivo? Ou foi porque ela se acha "verde"?

sábado, 17 de julho de 2010

Medicamentos Genéricos - Trocando o ditado "o barato sai caro" por "o seguro morreu de velho"

Quem nunca comprou um medicamento genérico na farmácia, ao invés daquele efetivamente prescrito pelo médico, porque custava metade do preço do remédio de "marca"?

Pois é, fiquei estarrecida com o que minha médica me contou, quando sugeri a troca de um medicamento, que faço uso contínuo, pela sua versão genérica.

Ela relatou que uma paciente sua fez a troca, com o intuito de reduzir o custo do tratamento. Após algumas semanas, observou que a  medicação genérica não fazia efeito, então, resolveu voltar para o remédio de marca antes utilizado, mas seu organismo não mais respondeu a essa droga, tendo a médica que alterar o fármaco prescrito, por um de outra natureza, mas que pudesse ser usado para o trato da mesma doença. Ou seja, bagunçou todo o tratamento, que até esse evento, vinha apresentando bons resultados.

Acabei por interrogar outros profissionais da área de saúde e li também algumas matérias publicadas na Internet, o que me deixou realmente preocupada!!!

A maioria dos médicos não é a favor do uso da medicação genérica ou da similar, pois as drogas, na maioria das vezes, não foram devidamente submetidos aos testes de equivalência farmacêutica e biodisponibilidade, apresentando, por isso, problemas de eficácia e qualidade.

Chegam a ocorrer situações em que é necessário prescrever doses altíssimas de medicação similar, para conseguir o mesmo efeito de um medicamento de marca registrada, o que acaba por gerar no paciente diversos efeitos colaterais, tais como o famoso "efeito rebote" (sonolência, irritação, falta de cognição, etc) naqueles que fazem uso de fármacos que alteram o equilíbrio químico do cérebro, ou seja, barbitúricos, psicotrópicos, ansiolíticos, os famosos diazepam, lorazepam, clorazepam, fluoxetina, anfepramona...

O que me chama mais atenção em nossa cultura, é a contradição de comportamentos frente aos remédios.

No mesmo país em que as pessoas tomam sibutramina como se fosse aspirina, compram remédios de tarja vermelha sem prescrição e sem sequer terem passado em consulta médica, é o mesmo país em que ainda é tabu procurar um psiquiatra quando os sintomas apresentados são de doenças psíquicas e não físicas.

É nesta pátria que se acusam os médicos de prescreverem medicação cara e de "grife" porque se suspeita de que TODOS OS MÉDICOS recebam "favores" dos laboratórios. 

Mas é também neste mesmo território que as pessoas sofrem de surdez moral na farmácia, quando o atendente sugere a troca do remédio de "marca" indicado na receita, pelo genérico ou similar, bem mais barato. Ou seja, porque há uma vantagem financeira IMEDIATA para quem compra, não é registrado na mente o fato de que "ALGUÉM TALVEZ ESTEJA RECEBENDO FAVORES DOS LABORATÓRIOS" para oferecer a troca. Até porque, qual o vendedor que sugeriria o produto mais barato para um cliente que veio comprar o mais caro?

Não que eu esteja criticando a lei que instituiu os genéricos no país. A ideia é nobre e a iniciativa fantástica. Muitas pessoas puderam tratar seus desequilíbrios orgânicos graças a esta medida. Este tipo de lei vai totalmente ao encontro de preceitos constitucionais garantistas, o que muito satisfaz meu desejo de justiça e cidadania.

Minha indignação vai para a falta de responsabilidade social dos laboratórios fabricantes, vai para a falta de fiscalização e controle da agência reguladora e das autoridades governamentais, vai para quem se dispõe a sugerir a troca do medicamento de "grife" pelo genérico SEM AO MENOS alertar o paciente dos riscos a que ele está exposto.

Pergunto: Se custasse a metade do preço, você tomaria alguma dessas bebidas em seu formato genérico sabendo que a qualidade não seria a mesma, ou ficaria com a bebida de "marca?"

Se você optou pela de marca, eu questiono: então porque você arriscaria a eficácia de um tratamento para curar alguma doença, que pode, inclusive, colocar sua vida em risco, optando pelo genérico?

PENSE NISSO!!

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